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Dia 8 – Speyside, pelos caminhos do whisky escocês
Deixar Inverness pela manhã e seguir em direção a Speyside é entrar em um território onde o whisky não representa apenas uma bebida. Ele faz parte da paisagem, da economia e da própria identidade das pequenas cidades espalhadas pelos vales dos rios Spey e seus afluentes.
Speyside abriga mais de cinquenta destilarias, a maior concentração de produtores de malt whisky entre as regiões produtoras da Escócia, e a maior densidade de destilarias de whisky do planeta. Ao longo das estradas, as placas marrons indicando destilarias tornam-se tão frequentes que é fácil compreender por que esta parte do país é considerada o coração mundial do single malt.
O mais interessante é perceber que, embora utilizem basicamente os mesmos ingredientes — água, cevada maltada e levedura —, cada destilaria desenvolveu sua própria personalidade. O formato dos alambiques, o tempo de fermentação, os cortes realizados durante a destilação e, principalmente, os barris utilizados na maturação transformam o whisky em algo profundamente ligado à história de cada casa.
Royal Brackla – o whisky do rei
A primeira parada foi na Royal Brackla, instalada nas terras da propriedade de Cawdor. Fundada em 1812 pelo capitão William Fraser, tornou-se célebre ao receber de William IV o primeiro Royal Warrant concedido a uma destilaria de Scotch whisky. A distinção valeu-lhe o apelido de “The King’s Own Whisky” — o whisky do próprio rei.

A parada é uma excelente introdução ao dia. O ambiente rural, cercado por campos, contrasta com a importância histórica da marca. Seus whiskies tornaram-se particularmente associados ao acabamento em barris de xerez, que acrescentam notas de frutas secas e especiarias ao caráter elegante do destilado.
É também uma oportunidade para perceber que muitas destilarias escocesas permanecem discretamente escondidas no campo. Não existem grandes avenidas ou edifícios urbanos anunciando sua presença. De repente, depois de uma curva na estrada, surgem telhados pagoda, armazéns escurecidos pelo tempo e aquele aroma adocicado de cevada que logo se tornará familiar.
Nota: a destilaria não possui uma loja nem oferece tours guiados ou degustações. A parada é apenas para vê-la por fora.
Benromach – o retorno ao antigo estilo de Speyside
A viagem continua até Forres, onde se encontra a Benromach. Construída em 1898, a destilaria atravessou períodos de fechamento e sucessivas mudanças de proprietários. Em 1993 foi adquirida pela tradicional empresa familiar Gordon & MacPhail, que iniciou um cuidadoso trabalho de restauração.

A proposta da Benromach é particularmente interessante: recuperar um estilo de whisky que teria sido comum em Speyside antes da década de 1960. Naquele período, a turfa ainda era utilizada com maior frequência na secagem da cevada, deixando uma delicada presença de fumaça no destilado. O resultado é um whisky que preserva as notas frutadas típicas de Speyside, mas apresenta uma sutil presença defumada.
É uma diferença pequena no início. Depois de algumas degustações, porém, o paladar começa a perceber como detalhes aparentemente insignificantes criam personalidades completamente distintas. Ali experimentamos também o gin produzido na casa.
Glen Moray – whisky às margens do Rio Lossie
A próxima parada leva novamente aos arredores de Elgin, agora para conhecer a Glen Moray. A história da destilaria começou de maneira curiosa. O local abrigava originalmente a Elgin West Brewery, uma cervejaria que produzia ales desde o século XIX. Em 1897, o edifício foi transformado em destilaria e, em 13 de setembro daquele ano, segundo os antigos registros manuscritos ainda preservados pela empresa, o primeiro destilado correu de seus alambiques.

Desde seus primeiros anos, Glen Moray experimentou diferentes tipos de barris. Hoje, a casa continua explorando maturações e acabamentos diversos, trabalhando, entre outros, com carvalho americano, barris de xerez e de vinho do Porto.
A visita ajuda a compreender uma das grandes lições deste dia: o barril não é apenas um recipiente onde o whisky espera envelhecer. Ele é um dos principais responsáveis por sua cor, aroma e sabor.
Strathisla – uma das imagens mais bonitas de Speyside
Em Keith encontra-se a Strathisla, a casa de Chivas. Poucas destilarias escocesas possuem uma aparência tão encantadora. Os antigos edifícios de pedra, os telhados em forma de pagode e as tradicionais rodas d’água compõem uma imagem que parece ter sido cuidadosamente criada para ilustrar um livro sobre whisky.
Mas Strathisla não é apenas bonita. Fundada em 1786, é a mais antiga destilaria em funcionamento da trilha oficial do Malt Whisky Trail e ocupa um lugar central na história da Chivas. O single malt produzido ali é um componente fundamental do perfil dos blends Chivas Regal.

É em Strathisla que o nosso roteiro deixou de ser apenas uma sucessão de rápidas paradas e ganhou uma visita mais detalhada. Havíamos já agendado previamente uma visita com degustação para o meio dia.
Durante a apresentação inicial, aprendemos que o caminho da cevada pelos equipamentos da destilaria nos permitiria compreender cada etapa do processo: a moagem transforma o malte em grist; a água é adicionada no mash tun; a fermentação cria um líquido semelhante a uma cerveja forte; e os alambiques de cobre finalmente realizam a destilação.

Aprendemos que a pureza da água da região é um dos ingredientes mais importantes da fabricação do whisky. Mas além disso os barris, a maturação e fermentação trazem aos rótulos características muito distintas.

Durante a degustação, pudemos comparar o single malt 11 anos de Strathisla com alguns dos blends da Chivas, o Extra 13 e o Royal Salute 21. E, de repente, aromas e sabores antes difíceis de identificar começaram a fazer sentido: frutas maduras, mel, especiarias, caramelo, madeira, fumaça. O whisky deixava lentamente de ser apenas uma bebida forte e passava a ser percebido como uma combinação de aromas, texturas e memórias.

Um fato interessante sobre a degustação é que eles fornecem um “kit viagem” para o motorista da vez – no caso, eu. O processo corre da mesma maneira para todos, a gente pode sentir o perfume dos diferentes whiskies mas, na hora de colocar na boca, derramamos o conteúdo das drams (copos especiais para degustação da bebida) em frascos de 50ml para serem levados para casa e experimentados depois.

Aberlour – uma pausa às margens do Spey
Depois da degustação, seguimos até a pequena vila de Aberlour. Com cerca de mil habitantes, Aberlour conserva a atmosfera tranquila das pequenas comunidades de Speyside. Edifícios vitorianos, hotéis tradicionais e o próprio nome da destilaria lembram constantemente a relação da vila com o whisky.
Foi aqui que fizemos uma pausa para o almoço. A ideia era comermos no The Mash Tun, restaurante do hotel com mesmo nome, super indicado por especialistas. Mas, como não tínhamos feito reserva, não conseguimos mesa. Então optamos por um café ali na avenida principal.
Depois de uma manhã inteira entre destilarias, sentar-se em um restaurante local e experimentar a culinária escocesa era quase obrigatório. Salmão, carnes, sopas e produtos da região combinam perfeitamente com a paisagem rural de Speyside. Nem que fosse em forma de sanduíche.
Após o almoço, fizemos uma breve parada na Aberlour. A atual destilaria foi estabelecida em 1879 por James Fleming, junto às águas locais e próxima ao Rio Spey. A marca tornou-se especialmente conhecida pela influência de barris ligados ao xerez espanhol; a própria casa descreve o cuidado com barris de carvalho espanhol preparados com Oloroso.

Para os apreciadores, o nome A’bunadh merece atenção especial. A expressão gaélica significa aproximadamente “o original” e identifica uma das linhas mais conhecidas da casa, profundamente associada ao caráter dos barris de xerez. Mesmo uma passagem rápida pela lojinha da destilaria ajuda a perceber como Aberlour permanece intimamente ligada à pequena vila que carrega seu nome.
| Speyside Cooperage – onde nascem e renascem os barris |
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| Poucos quilômetros depois encontra-se um dos locais mais fascinantes de todo o roteiro: a Speyside Cooperage. Infelizmente não conseguimos incluir a cooperativa no roteiro do dia. Mas lemos bastante a respeito e é um lugar bem recomendado. Depois de passar o dia ouvindo falar sobre o whisky e seus barris, é um bom lugar para conhecer os profissionais responsáveis por eles. Desde 1947, a cooperage preserva a antiga arte dos coopers, os tanoeiros. Da galeria de observação, é possível acompanhar os artesãos desmontando, reparando e remontando barris em um ritmo impressionante. Não há pregos nem cola mantendo as aduelas unidas. Madeira, aros metálicos, pressão e precisão. O som dos martelos ecoa pelo enorme galpão enquanto dezenas de barris passam pelas mãos dos tanoeiros. É quase uma coreografia industrial. Dizem que depois de conhecer a cooperage, nunca mais se olha para um barril de whisky da mesma maneira. |

The Macallan – o templo contemporâneo do whisky
Uma das razões para não termos visitado a cooperativa é que já havíamos marcado hora no bar da Macallan. O dia tinha que terminar de maneira espetacular.
Às margens do Rio Spey encontra-se The Macallan Estate. Licenciada para destilar desde 1824, a Macallan nasceu em uma propriedade que hoje possui cerca de 485 acres, tendo a histórica Easter Elchies House como um de seus símbolos.
Entretanto, é o edifício contemporâneo da destilaria que imediatamente chama atenção. Integrada ao relevo, sua cobertura ondulada parece surgir diretamente das colinas de Speyside. A arquitetura não tenta imitar as antigas destilarias escocesas. Pelo contrário: apresenta uma visão absolutamente moderna sobre o futuro do whisky.

Ali dentro, um cenário futurista mistura ao enorme salão de destilação diversas prateleiras e displays iluminados, com dezenas de garrafas de edições especiais.
Esses grandes alambiques de cobre, conhecidos como pot stills, estão entre as imagens mais emblemáticas de uma destilaria escocesa. Com seus corpos arredondados e enormes pescoços curvos que lembram gigantescos vasos ou chaleiras de cobre, eles parecem mais obras de arte do que equipamentos industriais. É dentro deles que o líquido fermentado é aquecido e o álcool se transforma em vapor, seguindo pelo estreito pescoço antes de ser novamente resfriado e condensado.
Curiosamente, o formato de cada alambique influencia o caráter do whisky. Alambiques altos e esguios tendem a favorecer destilados mais leves e delicados, enquanto modelos baixos e largos podem produzir bebidas mais encorpadas e robustas. Por isso, as destilarias preservam cuidadosamente suas formas e dimensões: quando um antigo alambique precisa ser substituído, o novo costuma ser construído como uma cópia quase exata do anterior, incluindo pequenas curvas e até imperfeições. Na Escócia, até o cobre parece guardar a memória do whisky.

Depois de um dia inteiro percorrendo destilarias, o bar da Macallan é o lugar perfeito para encerrar a jornada. Não é mais necessário estudar alambiques. Nem discutir fermentação. Nem tentar memorizar tipos de cevada. É hora simplesmente de escolher um dram, sentar-se e apreciar. Do lado de fora, as colinas de Speyside estendem-se em direção ao Rio Spey. Sobre a mesa, um copo de whisky.

A visita ao Estate exige planejamento e reserva prévia para suas experiências e acessos disponíveis, por isso convém confirmar antecipadamente a modalidade escolhida para o bar ou demais espaços.
Ali fora, entre as imagens mais características da paisagem escocesa, encontramos alguns espécimes do Highland Cattle, a famosa raça de gado de longos chifres e espessa pelagem desgrenhada, conhecida localmente como Heilan coo. Originária das Highlands e das ilhas do oeste da Escócia, a raça desenvolveu-se para enfrentar um dos climas mais severos do Reino Unido. Seus longos pelos, que podem variar do ruivo intenso ao preto, amarelo e prateado, formam uma proteção natural contra o vento, a chuva e o frio, permitindo que os animais permaneçam ao ar livre mesmo durante os rigorosos invernos escoceses.
Apesar da aparência imponente, esses animais são conhecidos pelo temperamento geralmente tranquilo e tornaram-se verdadeiros símbolos da Escócia. É comum encontrá-los pastando lentamente junto às estradas das Highlands, com a longa franja cobrindo parcialmente os olhos e criando uma expressão quase simpática. Extremamente resistentes, conseguem alimentar-se em terrenos pobres e montanhosos onde outras raças teriam dificuldade para sobreviver — uma adaptação perfeita à paisagem rude e bela das Highlands.

Depois de tantas histórias, barris, aromas e degustações, foi possível finalmente compreender uma antiga ideia escocesa: whisky não é uma bebida para ser tomada com pressa. Ele exige tempo: tempo para ser produzido, tempo para envelhecer, e tempo para ser apreciado.
Ao final do dia, retornamos a Inverness levando conosco muito mais do que algumas garrafas e o sabor de alguns dos melhores single malts da Escócia. Levamos uma nova compreensão sobre uma tradição que, há séculos, transforma água, cevada e madeira em uma das maiores expressões culturais deste país.
Próxima parada: Ilha de Skye.
Crédito das fotos: Fabio Tagnin
