Fizemos esta viagem em outubro de 2025. A ideia foi pegar o outono nas Highlands, pra conhecer as paisagens com seus tons contrastantes de verde, amarelo e vermelho e, de quebra, visitar algumas das destilarias de whisky mais famosas do país. Ficamos uns dias em Edimburgo e partimos de carro para visitar Stirling, Scone, Blair, Fort William, Inverness, Elgin, Lossiemouth, Speyside (destilarias), Eilean Donan, a Ilha de Skye, Glenfinnan, Onich, Glencoe, Luss e Glasgow.

Entre as destilarias mais famosas, estivemos na Royal Brackla, Benromach, Glen Moray, Strathisla (Chivas), Macallan, Aberlour, Talisker e Loch Lomond. Sobraram umas tantas outras para um dia retornarmos, entre elas a Craigellachie, Balvenie, Glenfiddich, GlenAllachie, Glenfarclass, Cardhu, Ballindalloch, Tormore, Glenlivet, Dalmore e Glenmorangie.
Muita gente faz um roteiro que inclui Escócia e Irlanda, mas nós fizemos a consciente decisão de visitar em 2 semanas apenas a Escócia. Queríamos ter o gostinho de nos aprofundarmos na cultura de um único país, conhecer sua língua, costumes, credos, climas e ambientes. E foi maravilhoso, como se pode ler pelo relato a seguir. Como dizem os escoceses, ao fazer um brinde: Sláinte!
Além de Edimburgo (esta página), estão incluídos nesta mesma viagem, páginas dedicadas a:
Edimburgo | Highlands | Speyside | Ilha de Skye | Lowlands
Edimburgo
Poucas cidades conseguem reunir tanta história, cultura e beleza em um espaço relativamente compacto quanto Edimburgo. Construída sobre antigos vulcões extintos e dividida entre uma cidade medieval extraordinariamente preservada e uma elegante cidade georgiana, a capital escocesa é uma combinação perfeita entre tradição e modernidade. Ao caminhar por suas ruas de pedra, entre castelos, vielas estreitas e edifícios centenários, o visitante rapidamente percebe que cada esquina guarda uma história.
Durante séculos, Edimburgo foi palco de coroações, batalhas, conspirações políticas e revoluções intelectuais. Foi aqui que viveram figuras como Mary Stuart, Sir Walter Scott, David Hume, Robert Louis Stevenson e Arthur Conan Doyle. Mais recentemente, seus cafés acolheram a jovem escritora J. K. Rowling enquanto escrevia boa parte da saga Harry Potter.
Apesar de seu passado grandioso, Edimburgo é uma cidade surpreendentemente acolhedora. Seus parques são impecavelmente cuidados, os pubs preservam uma atmosfera calorosa e seus moradores demonstram um orgulho contagiante por sua cultura.
Além do primeiro dia, o dia da chegada, reservamos três dias inteiros para conhecê-la. Embora seja possível visitar seus principais pontos turísticos rapidamente, a verdadeira essência da cidade revela-se caminhando sem pressa, entrando em pequenas vielas, apreciando a arquitetura e descobrindo histórias escondidas entre suas antigas muralhas.
Dia 2 – Old Town, New Town e Arthur’s Seat
Nada representa melhor Edimburgo do que a Royal Mile. Esta avenida histórica liga o Castelo de Edimburgo ao Palácio de Holyroodhouse, atravessando exatamente o centro da Cidade Velha. Apesar do nome, ela mede pouco mais de uma milha escocesa — aproximadamente 1,8 quilômetro — e concentra alguns dos edifícios mais importantes do país.
Começamos o passeio logo cedo, com um Free Walking Tour da Civitatis. Apesar do céu estar num azul intenso e raro para a cidade, as pedras ainda pareciam úmidas pelo orvalho típico das noites da Escócia, e refletiam a luz suave da manhã. Enquanto as primeiras lojas começavam a abrir suas portas, dava para sentir o aroma de café sendo servido aos primeiros fregueses.
Ao longo do caminho e do dia, músicos de rua tocavam gaitas de fole, artistas se apresentavam nas esquinas e as antigas construções de pedra pareciam nos transportar diretamente para a Idade Média.
Do nosso hotel, precisávamos subir a Victoria Street para chegar ao ponto de encontro. Poucas ruas conseguem representar tão bem a personalidade de Edimburgo quanto esta curta, sinuosa e surpreendentemente colorida rua. Ela desce em uma elegante curva ligando a George IV Bridge ao Grassmarket, formando um dos cenários urbanos mais fotografados da Escócia.

Construída entre 1829 e 1834 pelo arquiteto Thomas Hamilton, a rua nasceu como parte de um grande projeto de modernização da Cidade Velha. Antes de sua construção existia ali um emaranhado de vielas estreitas e insalubres que foram demolidas para melhorar a circulação e as condições sanitárias da região.
Seu desenho chama atenção imediatamente. As fachadas das lojas acompanham a curvatura da rua, enquanto um nível superior, sustentado por arcadas de pedra, abriga uma elegante passarela que permite observar o movimento lá embaixo. Esse jogo de diferentes níveis é uma das características mais marcantes da arquitetura medieval de Edimburgo.
Hoje, as antigas construções de pedra abrigam pequenas livrarias, boutiques independentes, lojas de artesanato, cafés e delicadas confeitarias. As portas pintadas em tons vibrantes de azul, vermelho, verde, amarelo e roxo criam um belo contraste com o cinza das paredes de arenito, tornando a Victoria Street um dos lugares mais fotogênicos da cidade.
Mas foi a literatura que transformou a rua em uma verdadeira atração mundial.
Como J. K. Rowling escreveu grande parte dos livros de Harry Potter em cafés de Edimburgo, muitos fãs acreditam que a Victoria Street serviu de inspiração para o famoso Beco Diagonal (Diagon Alley). A autora jamais confirmou oficialmente essa relação, mas a semelhança é difícil de ignorar. As fachadas estreitas, as lojas peculiares, as curvas da rua e a atmosfera quase mágica fazem com que caminhar por ali seja como entrar em um cenário da série.
Essa fama fez surgir diversas lojas dedicadas ao universo de Harry Potter. A mais conhecida é a Museum Context, especializada em objetos inspirados na saga, onde varinhas, capas, mapas, cartas de Hogwarts e outros itens encantam visitantes de todas as idades.
Mesmo para quem nunca leu os livros, a Victoria Street continua sendo um dos locais mais agradáveis para passear sem destino. Vale entrar nas pequenas lojas, observar os detalhes das fachadas, experimentar um café ou simplesmente sentar-se em um dos restaurantes e acompanhar o movimento constante de moradores e turistas.
No final da tarde, quando as luzes das vitrines começam a se acender e a pedra arenítica adquire tons dourados, a rua ganha uma atmosfera ainda mais especial. É nesse momento que se compreende por que tantos visitantes a consideram o lugar mais encantador de Edimburgo.
Na parte mais baixa desta rua, ela emenda com a Candlemaker Row, onde fica a entrada para um dos lugares mais famosos de Edimburgo, o cemitério Greyfriars Kirkyard. À primeira vista trata-se apenas de um antigo cemitério, mas poucos locais possuem tantas histórias.

Foi aqui que viveu Greyfriars Bobby, o pequeno cão Skye Terrier que permaneceu durante quatorze anos junto ao túmulo de seu dono, tornando-se símbolo mundial de fidelidade – e tema de um filme da Disney, Meu Leal Companheiro, de 1961.
Também é neste cemitério que muitos fãs de Harry Potter procuram túmulos cujos nomes inspiraram diversos personagens da série. Independentemente disso, caminhar entre suas antigas lápides transmite uma atmosfera única.
Subindo a avenida do cemitério, a George IV Bridge, chegamos finalmente na Royal Mile, onde iniciamos o tour guiado. Ali encontra-se a igreja mais importante da Escócia, a St. Giles’ Cathedral. Sua torre em forma de coroa tornou-se um dos símbolos da cidade. Embora seja conhecida como catedral, tecnicamente ela não abriga atualmente a sede de um bispo.

Foi ali que o reformador John Knox liderou a Reforma Protestante escocesa no século XVI, transformando profundamente a história religiosa do país. Seu interior impressiona pela elegância, com destaque especial para a belíssima Thistle Chapel, sede da Ordem do Cardo, a mais alta ordem de cavalaria da Escócia. As delicadas esculturas em madeira e os detalhes do teto figuram entre os trabalhos artesanais mais impressionantes do Reino Unido.

Em frente à catedral encontra-se o Mercat Cross. Durante séculos este foi o centro da vida pública de Edimburgo. Ali eram anunciadas leis, proclamações reais, execuções, casamentos reais e resultados de batalhas. Hoje poucos turistas imaginam que aquele elegante monumento foi palco de alguns dos momentos mais dramáticos da história escocesa.

Do outro lado da rua fica a Câmara Municipal. Originalmente denominada Royal Exchange, edifício foi construído em 1753 por John Adam para atender aos comerciantes da cidade. A Câmara Municipal transferiu-se lá em 1811, uma vez que as instalações anteriores — no Old Tolbooth, do outro lado da Royal Mile — já não comportavam as necessidades do órgão. Uma ampla reforma com ampliação realizada em 1904 introduziu diversos novos espaços, adornados com detalhes requintados, como pinturas magníficas e mobiliário histórico, refletindo assim a trajetória fascinante do local. Atualmente, a câmara funciona como o centro administrativo de Edimburgo e sedia casamentos, conferências e outros eventos particulares, oferecendo uma combinação singular de charme histórico e funcionalidade moderna.
É legal percorrer lentamente toda a Royal Mile. A rua é muito mais interessante do que aparenta à primeira vista. De um lado fica o Castelo de Edimburgo, do outro o Palácio de Holyrood. E entre eles, em ambos os lados, encontram-se dezenas de pequenas passagens chamadas closes, vielas extremamente estreitas que conduzem a pequenos pátios internos escondidos entre os edifícios.

Cada uma possui uma história diferente. Algumas receberam nomes curiosos relacionados aos antigos moradores; outras escondem antigas tavernas, pequenas lojas ou jardins praticamente invisíveis para quem apenas passa pela avenida principal. Alguns dos mais pitorescos são a Milne’s Court, The Real Mary King’s Close, os jardins da Dunbar’s Close, a White Horse Close e a Boswell’s Court.
Quase em frente à catedral foi posicionada a estátua de David Hume. Há uma curiosa lenda que diz que quem tocar em seu pé descalço vai ganhar uma vasta gama de conhecimento. Pois não custa nada tentar…

Seguindo na Bank St. rua perpendicular à Royal Mile, e entrando em um dos closes, fica o Writer’s Museum, mas estava fechado quando passamos.

Descemos então a The Mound e passamos pela National Gallery of Scotland e pela Royal Scottish Academy of Art & Architecture, dois edifícios magníficos que separam os jardins da Princes Street, principal avenida que separa Old Town de New Town.

No século XVIII, a população já não cabia mais dentro das antigas muralhas. Surgiu então um ambicioso projeto urbano que deu origem à New Town, considerada uma das maiores realizações do urbanismo europeu. De um lado encontram-se lojas, hotéis e cafés. Do outro, amplos jardins permitem admirar livremente o Castelo de Edimburgo erguido sobre o rochedo. É provavelmente uma das avenidas urbanas com vista mais bonita da Europa. Ainda mais num dia bonito com o que pegamos. Repito: uma situação rara.
No centro da avenida ergue-se um impressionante monumento em estilo neogótico. Construído em homenagem ao escritor Sir Walter Scott, o Scott Monument possui mais de sessenta metros de altura. E dizem que quem enfrenta os mais de 280 degraus é recompensado por uma das melhores vistas panorâmicas da cidade – mas naquele momento do dia não tivemos forças.

Já chegando o fim da tarde, seguimos em direção ao extremo oposto da Royal Mile e começamos uma caminhada totalmente diferente, subindo o morro ali ao lado. Arthur’s Seat é o ponto mais alto do Holyrood Park. Na verdade trata-se do antigo cone de um vulcão extinto. A subida leva entre quarenta minutos e uma hora, dependendo do ritmo, mas o esforço vale cada passo. Do topo é possível contemplar praticamente toda Edimburgo, o Mar do Norte, as Highlands ao longe e as sinuosas ruas da cidade. E é um dos melhores lugares para assistir ao pôr do sol.

Dia 3 – Castelo, Palácios e Calton Hill
Depois de explorar pelo lado de fora o lado medieval e o contemporâneo de Edimburgo, o segundo dia reservamos para visitas internas.
Erguido sobre Castle Rock, um imenso rochedo vulcânico formado há cerca de 340 milhões de anos, o Castelo de Edimburgo domina completamente o horizonte da cidade. Durante mais de mil anos, essa fortaleza foi considerada praticamente inexpugnável graças às escarpas que a cercam em três de seus lados.

Sua história confunde-se com a própria história da Escócia. Ali viveram diversos reis e rainhas, entre eles Mary Stuart, que deu à luz naquele castelo o futuro Jaime VI da Escócia, posteriormente também Jaime I da Inglaterra, unificando as coroas britânicas.
A visita é obrigatória e é uma verdadeira viagem no tempo. Entre seus destaques estão: as Joias da Coroa Escocesa; a Pedra do Destino, utilizada nas coroações dos monarcas escoceses durante séculos; a Capela de Santa Margarida, construída no século XII e considerada o edifício mais antigo de Edimburgo; o Grande Salão, com seu impressionante teto de madeira; e o Museu Nacional da Guerra.
Às treze horas em ponto, ocorre uma tradição iniciada em 1861: o famoso disparo do One O’Clock Gun, um canhão disparado diariamente para que, antigamente, os navios no porto pudessem acertar seus relógios. Do alto das muralhas, a vista sobre toda Edimburgo é simplesmente magnífica.

Na extremidade oposta da Royal Mile encontra-se o moderno edifício do Parlamento Escocês e a residência oficial da família real britânica quando está na Escócia, o Palácio de Holyroodhouse.

Foi ali que o secretário particular de Mary Stuart, David Rizzio, foi brutalmente assassinado na frente da própria rainha por conspiradores liderados por seu marido. Os aposentos históricos preservam parte dessa dramática história, mas infelizmente não se pode tirar fotos lá dentro.

Colada literalmente às paredes do Palácio encontram-se as impressionantes ruínas da Abadia de Holyrood, um dos lugares mais simbólicos da história da Escócia. Embora hoje reste apenas sua elegante estrutura de pedra aberta para o céu, durante quase seis séculos ela foi o principal centro religioso da monarquia escocesa, palco de coroações, casamentos reais e cerimônias de Estado.

Sua origem remonta ao ano de 1128, quando o rei David I fundou um mosteiro para os monges agostinianos. Segundo a tradição, o monarca caçava nas colinas próximas quando foi surpreendido por um enorme cervo. No momento em que acreditava estar prestes a ser atingido pelos chifres do animal, uma cruz luminosa teria surgido entre eles. O cervo então recuou misteriosamente, e David interpretou o episódio como um sinal divino. Em agradecimento, mandou construir naquele local uma abadia dedicada à Santa Cruz. O nome Holyrood deriva justamente do inglês antigo Holy Rood, que significa “Santa Cruz”.
Ao longo dos séculos, a abadia tornou-se um dos edifícios religiosos mais importantes do reino. Diversos reis da Escócia foram ali coroados, casaram-se ou tiveram seus funerais celebrados entre suas paredes. Entre os acontecimentos mais marcantes está o casamento, em 1449, do rei James II com Maria de Gueldres, uma cerimônia que reforçou as alianças diplomáticas da Escócia com o continente europeu. E no século XVI, a abadia também testemunhou episódios ligados à conturbada vida de Mary Stuart, que frequentava regularmente seus serviços religiosos e caminhava entre os mesmos claustros que hoje permanecem em ruínas.
O edifício sofreu sucessivos danos ao longo de sua história. Durante a Reforma Escocesa, em 1560, imagens religiosas e altares foram destruídos por grupos protestantes. Mais tarde, tropas inglesas causaram novos estragos durante conflitos entre os dois reinos. O golpe definitivo veio em 1768, quando o pesado teto de pedra desabou após anos de abandono e falta de manutenção. Em vez de reconstruí-la, decidiu-se preservar suas ruínas exatamente como permaneceram após o colapso.
Um pouco mais acima na Royal Mile fica o Museu de Edimburgo. Não visitamos, por falta de tempo, mas sei que é recomendado por muitos.
Depois de um lanchinho e um sorvete, poucos minutos de caminhada nos levaram até outra das grandes atrações de Edimburgo. O Calton Hill oferece uma vista espetacular sobre os telhados da cidade, o Castelo, Arthur’s Seat e o estuário do Rio Forth.

Ali encontram-se alguns monumentos curiosos, entre eles o National Monument, inspirado no Partenon de Atenas. Dizem que, como nunca foi concluído, ganhou entre os moradores o apelido de “A vergonha de Edimburgo”.
Dia 4 – Leith, Museu e Whisky Experience
Depois de dois dias explorando os monumentos mais famosos, o terceiro dia nos permitiu descobrir uma Edimburgo mais tranquila e menos conhecida e terminar bem o dia aprendendo um pouco mais sobre o Scotch, o whisky escocês.
Como havíamos comprado o passe de ônibus Hop-on Hop-off de 2 dias, aproveitamos para tomar a linha azul e visitar Leith. No passado, Leith era apenas o porto de Edimburgo. Hoje tornou-se um dos bairros mais interessantes da cidade, onde armazéns antigos transformaram-se em restaurantes, galerias de arte, cafeterias e bares modernos. É também um excelente lugar para experimentar frutos do mar fresquíssimos.
O passe múltiplo que compramos dava direito ao Castelo de Edimburgo, Palácio de Holyrood e uma visita ao antigo iate real HMY Britannia. Durante décadas o barco foi a residência flutuante da família real britânica. Após 44 anos de viagens ao redor do mundo, ele foi decomissionado em 11 de dezembro de 1997, em Portsmouth. Em seguida foi transformado em museu e aberto ao público em 19 de outubro de 1998.

Tomando o ônibus de volta a Old Town, fomos visitar um dos melhores museus do Reino Unido, o Museu Nacional da Escócia. Sua coleção é extremamente diversificada: dinossauros, tecnologia, história natural, arqueologia, cultura escocesa, artefatos romanos e invenções industriais convivem harmoniosamente em galerias modernas. Mesmo quem normalmente não aprecia museus costuma surpreender-se com a qualidade das exposições. E a entrada é gratuita.

Nenhuma visita à Escócia estaria completa sem conhecer um pouco da bebida que se tornou um dos maiores símbolos nacionais, o Scotch, ou whisky escocês. Antes de sair do brasil já havíamos feito uma reserva de degustação “prata” na Scotch Whisky (the) Experience (link), ao lado do Castelo de Edimburgo.
Ali, mesmo quem não é apreciador da bebida acaba descobrindo como pequenas diferenças de água, barris, tempo de maturação e região de produção criam estilos completamente distintos, com diferentes aromas, corpos e finalizações. É uma excelente introdução para os dias seguintes da viagem, quando o roteiro seguirá para Speyside, considerada o verdadeiro coração da produção de whisky escocês.

Ao final da visita, entramos em uma sala circular cuja iluminação dourada fazia milhares de garrafas brilharem atrás de enormes paredes de vidro. A primeira impressão é de estar diante de uma biblioteca, mas, em vez de livros, as estantes guardam uma das mais extraordinárias coleções de whisky escocês já reunidas.
São 3.384 garrafas, cuidadosamente organizadas, formando um verdadeiro registro da evolução do Scotch Whisky ao longo de mais de um século. A coleção reúne desde rótulos extremamente raros e históricos até garrafas comuns que, justamente por terem sido preservadas intactas, tornaram-se hoje importantes testemunhos da história da indústria escocesa.
O que poucos visitantes imaginam é que essa coleção foi criada por um brasileiro. Seu idealizador foi Claive Vidiz, empresário paulistano e um dos fundadores da Associação Brasileira de Colecionadores de Whisky. Na década de 1970, durante uma visita de um colega escocês ao Brasil, Vidiz recebeu de presente seis garrafas de single malt — Glenlivet 12 anos, Glenmorangie 10 anos, Lagavulin 12 anos, Laphroaig 10 anos, The Macallan 12 anos e Strathisla 12 anos. Na época, esses whiskies eram praticamente impossíveis de encontrar no mercado brasileiro. Em vez de abri-los, decidiu preservá-los lacrados. Sem imaginar, acabava de iniciar uma coleção que consumiria mais de trinta e cinco anos de sua vida.

A partir daí, cada viagem internacional transformava-se em uma verdadeira caça ao tesouro. Vidiz procurava garrafas em lojas especializadas, leilões, coleções particulares e distribuidores, sem se preocupar apenas com os rótulos mais caros. Seu objetivo era muito mais ambicioso: documentar toda a diversidade do whisky escocês, reunindo exemplares de diferentes destilarias, épocas, estilos e mercados de exportação. O resultado foi um acervo considerado por especialistas um verdadeiro retrato da indústria do Scotch Whisky entre as décadas de 1970 e o início dos anos 2000.
Quando percebeu que a coleção havia adquirido importância histórica, Claive Vidiz começou a refletir sobre seu futuro. Seu maior desejo era que ela permanecesse íntegra e pudesse ser vista pelo público, em vez de ser dividida entre herdeiros ou dispersa em leilões. Em outubro de 2006, a coleção foi adquirida pela Diageo, maior produtora mundial de bebidas destiladas e proprietária de marcas como Johnnie Walker, Talisker, Lagavulin, Oban e Cardhu. A empresa comprometeu-se a preservar o conjunto exatamente como havia sido concebido por seu criador.
Depois de um cuidadoso transporte do Brasil para a Escócia, foi construído um cofre especialmente projetado no Scotch Whisky Experience, onde a coleção foi inaugurada ao público em maio de 2009. Desde então, ela passou a ser conhecida oficialmente como The Diageo Claive Vidiz Scotch Whisky Collection e tornou-se um dos maiores atrativos da instituição.
Entre as milhares de garrafas encontram-se verdadeiras relíquias. Algumas remontam ao final do século XIX, como uma raríssima Buchanan’s de 1897, enquanto outras documentam mudanças de rótulos, embalagens e marcas que desapareceram do mercado há décadas. Justamente por preservar tanto os grandes ícones quanto os whiskies mais comuns de cada época, a coleção tornou-se uma valiosa fonte para pesquisadores e historiadores da bebida.
Claive Vidiz costuma dizer que, no Brasil, existe a expressão “o bom filho à casa torna”. Foi exatamente assim que descreveu a transferência de sua coleção para a Escócia. Em sua visão, aquelas garrafas, produzidas ao longo de gerações nas Highlands, em Speyside, Islay e nas demais regiões produtoras, simplesmente haviam voltado para casa.
Ao deixar a sala, muitos visitantes percebem que acabaram de conhecer não apenas uma coleção de garrafas, mas um extraordinário trabalho de dedicação, paciência e paixão. E para os brasileiros existe um motivo adicional de orgulho: uma das maiores referências mundiais na preservação da história do whisky escocês nasceu, curiosamente, a milhares de quilômetros dali, em São Paulo.
Dia 5 – Dean Village e a despedida de Edimburgo
Poucos turistas imaginam que, a apenas quinze minutos do centro, existe uma pequena vila que parece saída de um conto de fadas. Durante séculos Dean Village foi um importante centro de moagem de grãos graças às águas do rio Water of Leith. Hoje suas casas de pedra, pequenas pontes e jardins floridos criam um dos cenários mais fotogênicos da cidade. Seu silêncio contrasta completamente com o movimento da Royal Mile. Tivemos certa dificuldade de encontrar lugar para parar o carro, mas a visita certamente vale a pena.

A partir de Dean Village pode-se seguir caminhando ao longo do rio, na Water of Leith Walkway. A trilha atravessa parques, bosques urbanos e antigos moinhos. É difícil acreditar que se está caminhando dentro de uma capital europeia, onde garças, esquilos e inúmeras aves costumam aparecer ao longo do percurso.
Ao final de três dias inteiros, Edimburgo deixa a sensação de que ainda haveria muito por descobrir. Talvez seja justamente esse seu maior encanto. Não é uma cidade que impressiona apenas pelos monumentos, mas pela atmosfera. Pela combinação entre história e modernidade, pela elegância discreta de seus edifícios de pedra, pelos sons das gaitas de fole (não é para muitos) ecoando entre as antigas vielas e pela hospitalidade de um povo profundamente orgulhoso de sua identidade.
Ao deixar a capital rumo às Highlands, a paisagem começará a mudar. Os edifícios darão lugar a outros castelos e palácios, colinas, lagos e montanhas, e a viagem revelará uma Escócia completamente diferente — mais selvagem, mais dramática e igualmente inesquecível. Edimburgo, entretanto, permanecerá como a porta de entrada perfeita para compreender a alma desse extraordinário país.
O dia 5 continua no próximo post: Highlands: o caminho a Fort William, passando pelo Castelo de Stirling, Palácio de Scone e Castelo de Blair.
Crédito das fotos: Fabio Tagnin
