Ilha de Skye – Escócia

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Dia 9 – Eilean Donan e a chegada à Ilha de Skye

Depois de alguns dias utilizando Inverness como base para explorar o norte da Escócia e as destilarias de Speyside, colocamos cedinho as malas no carro e seguimos viagem. Este dia pode ter sido um dos mais cinematográficos de todo o roteiro, percorrendo a Escócia das montanhas, dos clãs e das paisagens quase irreais da Ilha de Skye. O destino final é Portree, a pequena capital da Ilha de Skye.

Como acontece frequentemente nas Highlands, o caminho aqui é tão importante quanto o destino.

A estrada deixa Inverness em direção ao sul, passa novamente pelo Castelo de Urquhart e, em Invermoriston, vira ao oeste, lentamente nos mergulhando em uma região cada vez mais isolada. As cidades desaparecem, as montanhas tornam-se mais altas e os lagos começam a acompanhar a estrada.

Depois de alguns quilômetros, começamos a beirar o Loch Duich. E em breve surge ali um dos castelos mais famosos do mundo. Poucas imagens representam tão bem a Escócia quanto o Castelo de Eilean Donan.

Construído sobre uma pequena ilha rochosa no ponto onde se encontram três grandes sea lochs — Loch Duich, Loch Long e Loch Alsh —, o castelo parece surgir diretamente das águas. Uma elegante ponte de pedra liga a ilha ao continente e completa uma paisagem que se tornou uma das imagens mais reconhecidas das Highlands.

Castelo de Eilean Donan

O céu neste dia estava nublado e chuviscava um pouco, tornando o cenário ainda mais dramático. As montanhas desapareciam parcialmente entre as nuvens, o lago assumia tons de cinza e o castelo refletia-se silenciosamente sobre a água.

A primeira grande fortificação foi construída naquela ilha no início do século XIII, durante o reinado de Alexandre II. Naquela época, esta parte da Escócia encontrava-se em uma região de disputa entre os reinos escoceses e a influência nórdica das ilhas do oeste – os vikings.

A posição de Eilean Donan era perfeita. De suas muralhas era possível controlar as águas dos três lagos e observar qualquer embarcação aproximando-se da região. Ao longo dos séculos, o castelo tornou-se especialmente ligado aos clãs Mackenzie e MacRae, duas famílias profundamente associadas à história das Highlands.

Mas, como acontece com a maioria dos castelos medievais, este também teve seus episódios dramáticos. O maior deles aconteceu em 1719. Durante uma tentativa jacobita de restaurar a dinastia Stuart ao trono britânico, soldados espanhóis ocuparam Eilean Donan e armazenaram pólvora dentro da fortaleza.

Navios da Marinha Real britânica atacaram o castelo. e, após intenso bombardeio, as tropas desembarcaram e utilizaram a própria pólvora encontrada no interior para destruir grande parte da fortaleza. E durante quase duzentos anos, Eilean Donan permaneceu abandonado.

A imagem que hoje parece absolutamente medieval é, na realidade, resultado de uma extraordinária reconstrução iniciada em 1919 pelo tenente-coronel John MacRae-Gilstrap. As obras duraram mais de vinte anos e também deram ao castelo sua famosa ponte em arco.

Depois de visitar Eilean Donan, mais um lugar onde era proibido fotografar os cômodos, seguimos até Kyle of Lochalsh.

Durante séculos, chegar à Ilha de Skye significava necessariamente embarcar em uma balsa, que até hoje parte de Mallaig e aporta em Armadale, na ilha. Isso mudou em 1995, com a inauguração da Skye Bridge, ligando Kyle of Lochalsh, no continente, à pequena Kyleakin, já na ilha. Inicialmente, a ponte tornou-se controversa por seus elevados pedágios, mas a cobrança foi abolida em dezembro de 2004.

Atravessá-la produz uma sensação curiosa. Tecnicamente, estamos apenas cruzando uma ponte. Mas a paisagem parece anunciar que estamos entrando em outro mundo. À frente encontra-se An t-Eilean Sgitheanach, o nome gaélico da Ilha de Skye.

A origem do nome Skye permanece discutida, mas uma de suas interpretações mais poéticas está relacionada à ideia de uma “ilha das nuvens”. E talvez nenhum nome pudesse ser mais apropriado. As nuvens em Skye parecem fazer parte da própria paisagem. Elas descem pelas encostas das montanhas, atravessam os vales e desaparecem sobre o mar. O clima muda em poucos minutos. Chove. O sol aparece. Uma névoa cobre as montanhas. E, de repente, tudo se abre novamente. É uma paisagem em constante transformação.

Depois de atravessar a ponte, seguimos para o sul da ilha. A estrada até Elgol torna-se progressivamente mais estreita. Em muitos trechos, transforma-se em uma típica single-track road, uma estrada com apenas uma faixa utilizada nos dois sentidos. Pequenas áreas laterais chamadas passing places permitem que os carros parem para dar passagem uns aos outros.

O sistema parece confuso no início. Depois de alguns quilômetros, torna-se quase natural. Quase tanto quanto dirigir na mão inglesa. E sempre há algumas ovelhas pitorescas pastando por ali esperando serem fotografadas.

Uma dentre tantas

E então chegamos a Elgol, uma pequena comunidade situada às margens do Loch Scavaig, no extremo da península de Strathaird. A cidade não possui grandes monumentos, pois sua atração está diante dos olhos.

Do litoral de Elgol pode-se apreciar uma das paisagens mais espetaculares de toda a Ilha de Skye. Do outro lado das águas erguem-se as Cuillin Hills. Montanhas escuras, recortadas e, de certo modo, agressivas. Completamente diferentes das suaves colinas encontradas em outras regiões da Escócia.

As Cuillin dividem-se em dois grandes conjuntos: as Black Cuillin, formadas principalmente por rochas vulcânicas escuras e conhecidas por seus cumes extremamente acidentados, e as Red Cuillin, de granito e formas geralmente mais arredondadas.

A partir da praia de Elgol, pudemos observar as montanhas do outro lado das águas. Quando as nuvens atravessam lentamente os picos, as Cuillin parecem desaparecer e reaparecer diante dos olhos.

Deixando Elgol, retornamos pelo mesmo trecho de estrada até Broadford e viramos em direção ao noroeste. A estrada atravessa o interior da ilha até chegar a Sligachan. O lugar é pequeno, quase apenas um ponto no mapa, mas sua paisagem tornou-se uma das mais fotografadas de Skye.

Sligachan Old Bridge

A antiga ponte de pedra – Sligachan Old Bridge – atravessa o rio Sligachan, tendo ao fundo as montanhas Cuillin. Não é uma construção monumental, mas sua beleza está justamente na simplicidade: pedra, água, montanhas. E o céu imprevisível de Skye.

A região também está envolvida em antigas histórias do folclore local. Uma das lendas mais populares afirma que mergulhar o rosto nas águas do rio Sligachan e deixá-lo secar naturalmente concederia beleza eterna. Como acontece com muitas lendas escocesas, não existem garantias. Mas, depois de um dia inteiro na estrada, talvez valha a tentativa.

Sligachan também oferece uma excelente oportunidade para uma pausa durante a viagem. Depois das estradas estreitas de Elgol, um café quente nos pareceu especialmente bem-vindo e entramos no Seuma’s Bar para nos aquecer por dentro e por fora.

Por fim, seguimos os últimos quilômetros até Portree. Com pouco mais de dois mil habitantes, esta é a maior cidade da Ilha de Skye e funciona como seu principal centro comercial e turístico. Seu nome deriva provavelmente do gaélico Port Rìgh, ou “Porto do Rei”, tradicionalmente associado a uma visita do rei Jaime V à região no século XVI.

O cartão-postal da cidade é seu pequeno porto. Uma sequência de casas coloridas acompanha a margem da água, enquanto barcos pesqueiros e pequenas embarcações balançam lentamente com a maré.

O porto de Portree ao nascer do sol

Havíamos alugado um pequeno e simpático sobrado a poucos minutos do centro. Deixamos as malas, nos acomodamos e saímos para jantar. Na Ilha de Skye, o mar está sempre presente na cozinha: salmão, haddock, mexilhões, vieiras, lagostins, caranguejos. Muitos restaurantes trabalham com produtos pescados nas águas ao redor da própria ilha.

E, naturalmente, sempre existe um whisky. Ao retornar ao sobrado, não resistimos e abrimos uma das garrafas compradas em Speyside.

Depois do jantar, pode-se dar uma breve caminhada pelo porto para observar as luzes refletidas sobre a água. Mas como o vento soprava frio, deixamos isso para a manhã de saída.

Dia 10 – Trotternish, entre a névoa e as montanhas de Skye

Acordamos em Portree sob um céu completamente fechado. As nuvens pareciam ter descido durante a noite e repousado sobre as montanhas da Ilha de Skye. Uma névoa fina cobria as encostas, o asfalto permanecia constantemente molhado e um chuvisco quase invisível acompanharia praticamente todo o nosso dia.

Talvez não fosse o clima ideal para fotografias de cartão-postal. Mas era, sem dúvida, um clima absolutamente escocês.

Deixamos Portree e seguimos para o norte, entrando na Península de Trotternish, a parte mais setentrional da Ilha de Skye. A longa escarpa que forma a espinha dorsal da península foi moldada por gigantescos deslizamentos de terra: espessas camadas de antigas lavas vulcânicas deslizaram sobre rochas sedimentares jurássicas mais frágeis, criando pináculos, paredões e blocos de pedra de formas quase irreais.

Neste dia, porém, a geologia parecia esconder-se deliberadamente atrás das nuvens.

Nossa primeira parada foi no extremo norte de Trotternish. Sobre um promontório rochoso castigado pelo vento encontram-se as ruínas do Castelo de Duntulm. Ali, não existem grandes salões restaurados, não há tapeçarias nem móveis antigos. Apenas pedras e lama. Mas talvez seja justamente por isso que Duntulm seja tão fascinante.

Ruínas do Castelo de Duntulum

O castelo ocupava uma posição extraordinariamente estratégica, protegido pelo mar e por desfiladeiros naturais. Durante séculos esteve ligado às disputas entre os poderosos clãs MacLeod e MacDonald e acabou tornando-se uma importante residência dos MacDonalds de Sleat. Em 1618, Donald Gorm Og recebeu a obrigação de reparar a fortaleza; o castelo permaneceu ligado ao clã até ser abandonado no século XVIII.

Naquele dia, a névoa escondia parcialmente o mar. O vento trazia pequenas gotas de chuva. As ruínas pareciam ainda mais isoladas. E o caminho da estrada até lá completamente molhado e escorregadio.

Depois de algumas escorregadas…

Como qualquer castelo escocês que se preze, Duntulm também possui suas histórias de fantasmas. Uma das tradições locais afirma, inclusive, que os MacDonalds teriam deixado o castelo porque a antiga residência se tornara assombrada demais. A família mudou-se para Monkstadt no século XVIII, enquanto Duntulm lentamente se transformava nas ruínas que vemos hoje.

Verdade ou não, naquele cenário era fácil acreditar. Ruínas sobre uma falésia. Mar escondido pela névoa. Vento. Chuvisco. Se um fantasma escocês decidisse aparecer, dificilmente encontraria cenário melhor.

Deixamos Duntulm e seguimos em direção sul pelas estreitas estradas de Trotternish. Pouco depois chegamos ao Quiraing. Ou, pelo menos, ao lugar onde sabíamos que estava o Quiraing. A névoa cobria grande parte das montanhas. Mas no topo de um platô o estacionamento pago era inconfundível, com alguns carros e uma barraquinha de comida e bebida.

De tempos em tempos, o vento abria pequenas janelas entre as nuvens e enormes paredões de pedra surgiam diante de nós. Poucos segundos depois, desapareciam novamente. Andamos um pouco na trilha em direção às montanhas, mas logo resolvemos retornar, pois o vento úmido estava nos castigando.

Quiraing

Quiraing faz parte do extraordinário sistema de deslizamentos de Trotternish. Grandes blocos de lava deslizaram sobre as rochas mais frágeis abaixo, criando um labirinto natural de falésias, pináculos e plataformas isoladas. É uma das paisagens geológicas mais extraordinárias de Skye.

Algumas de suas formações receberam até nomes específicos. The Needle, uma enorme agulha de pedra. The Table, uma curiosa plataforma gramada escondida entre os paredões. The Prison, um maciço rochoso que, visto de determinados ângulos, lembra as muralhas de uma antiga fortaleza.

O escritor escocês Alexander Smith, ao percorrer Trotternish no século XIX, chegou a descrever aquela paisagem como um “pesadelo da natureza”. Naquele dia, entendemos perfeitamente o que ele queria dizer. Quiraing não parecia bonito no sentido convencional. Parecia misterioso, antigo, quase ameaçador. E absolutamente inesquecível.

Partimos dali em direção à costa leste da península, rumo a Kilt Rock. O nome vem da curiosa aparência das falésias, cujas colunas verticais de basalto lembram as pregas de um kilt, a tradicional saia escocesa.

Diante delas, a água do Mealt Loch forma a Mealt Falls e despenca diretamente da falésia em direção ao mar — uma combinação de paredão rochoso e cachoeira que se tornou uma das imagens mais conhecidas de Skye.

Kilt Rock

Naquele dia, o Mar do Norte apresentava tons de cinza. O céu também era cinza. As pedras eram quase negras. A água da cachoeira era levada pelo vento enquanto caía da falésia. Era uma paisagem quase monocromática. Fria e belíssima.

Deixamos Kilt Rock e seguimos mais para o sul. A última parada do dia era também a mais aguardada, Old Man of Storr. Muito antes de chegar ao estacionamento, sua silhueta costuma ser visível da estrada. Naquele dia, não vimos absolutamente nada. As nuvens haviam engolido completamente a montanha. Mesmo assim, colocamos os casacos impermeáveis e começamos a úmida e balançante caminhada.

A trilha até a base das formações rochosas possui aproximadamente cinco quilômetros, considerando ida e volta, e apresenta uma subida relativamente íngreme. Sob vento e chuva fina, entretanto, tudo parece um pouco mais difícil.

O terreno estava molhado. Pequenos filetes de água cruzavam o caminho. A névoa reduzia a visibilidade. O vento frio entrava pelas nossas orelhas. Subíamos sem saber exatamente o que encontraríamos alguns metros adiante. E talvez isso tenha tornado a caminhada ainda mais interessante.

Vento, muito vento

A formação conhecida como Old Man (o velho de Storr) é um enorme pináculo de pedra que se destaca das demais formações da encosta na extremidade sul de uma das maiores áreas contínuas de deslizamentos de terra da Grã-Bretanha. Sua origem está ligada aos mesmos gigantescos movimentos geológicos que formaram Quiraing.

Mas, naturalmente, os escoceses possuem explicações muito mais interessantes sobre sua origem. Uma das lendas conta que um gigante vivia na região. Quando morreu, foi enterrado sob as montanhas. O enorme pináculo de pedra seria seu polegar, a única parte do corpo que permaneceu acima da terra. Outra tradição relaciona o lugar a antigas criaturas e espíritos das Highlands. A geologia explica. As lendas encantam. Na Escócia, sempre vale conhecer as duas versões.

Enfim, continuamos subindo. Durante boa parte da caminhada, víamos apenas névoa. Até que, por alguns instantes, o vento começou a movimentar as nuvens. Primeiro apareceu uma sombra. Depois um enorme paredão. E finalmente, entre a névoa, surgiu a silhueta escura do Old Man of Storr.

Old Man of Storr

Não durou muito. Poucos minutos depois, as nuvens voltaram a cobrir tudo. Mas talvez justamente por isso o momento tenha sido tão especial. Não tivemos a clássica vista ensolarada de Skye. Tivemos outra ilha. Mais silenciosa. Mais misteriosa. Mais escocesa.

Descemos a trilha com as roupas úmidas e os sapatos cobertos de lama. O chuvisco continuava. Mas já dentro do carro, sem os casacos molhados, o ar quente e algumas bolachinhas nos restauraram as energias.

Voltamos para Portree no final da tarde enquanto as nuvens permaneciam presas às montanhas de Trotternish. Foi um dia cinzento, frio, molhado e absolutamente perfeito. Porque algumas paisagens precisam de sol para revelar sua beleza. A Ilha de Skye, ao contrário, parece ter sido criada para a névoa.

Nesta noite, jantamos em casa, comidinha caseira, whisky e papos sobre o dia cinzento. No dia seguinte, mais um passeio pela ilha nos aguardava.

Dia 11 – das Fairy Pools ao pôr do sol em Neist Point

Acordamos novamente em Portree sob o mesmo céu úmido que havia nos acompanhado no dia anterior. A névoa ainda cobria parte das montanhas, pequenas gotas permaneciam suspensas no ar e o chão parecia nunca secar completamente. Depois de conhecer Trotternish sob um interminável chuvisco, começávamos a aceitar uma verdade bastante simples: na Ilha de Skye, não se espera o tempo melhorar. Coloca-se uma roupa impermeável e segue-se viagem.

Deixamos Portree pela manhã e seguimos novamente em direção às Cuillin. O destino seria Glen Brittle, onde uma sequência de pequenas cachoeiras e piscinas naturais tornou-se um dos lugares mais conhecidos da ilha: as Fairy Pools.

A trilha começa diante de uma paisagem ampla e praticamente sem árvores. Ao fundo, quando as nuvens permitem, erguem-se as montanhas escuras das Black Cuillin. Naquela manhã, porém, elas permaneciam parcialmente escondidas.

Começamos a caminhar sob uma névoa úmida e fina. O caminho acompanha cursos d’água que descem das Cuillin em direção a Glen Brittle. Ao longo do percurso, sucessivas quedas-d’água formam piscinas naturais de água extraordinariamente transparente entre as rochas. A caminhada até a região das primeiras piscinas segue por trilha estruturada e pontes, e a primeira grande queda aparece depois de cerca de vinte minutos.

Fairy Pools

Como frequentemente acontece na Escócia, a paisagem natural acabou envolvida pelo folclore. O nome Fairy Pools (Piscinas das Fadas) combina perfeitamente com uma ilha onde histórias sobre seres sobrenaturais, espíritos e criaturas mágicas fazem parte da tradição oral.

Não é difícil compreender a associação. Pequenas cachoeiras, água transparente, montanhas cobertas pela névoa. E praticamente nenhum sinal de civilização ao redor. Se as fadas realmente precisassem escolher um lugar para viver, Glen Brittle seria uma escolha bastante razoável.

Continuamos caminhando. A água possuía tons que variavam entre o azul profundo e o verde. Em alguns pontos, era possível observar perfeitamente as pedras no fundo. E, pouco a pouco, alguma coisa começou a mudar. A névoa tornou-se mais fina. As nuvens começaram lentamente a subir pelas encostas. Primeiro apareceu uma montanha. Depois outra. E finalmente parte das Black Cuillin surgiu diante de nós.

Fairy Pools e as montanhas começando a aparecer ali atrás

Foi uma transformação lenta, quase imperceptível. Depois de quase dois dias sob nuvens baixas, finalmente começávamos a compreender a verdadeira dimensão daquelas montanhas. Guardamos os capuzes. E seguimos caminhando. Skye finalmente começava a se revelar.

Depois de umas duas horas e pouco de caminhada, entre ida e volta, deixamos Glen Brittle e seguimos até a pequena vila de Carbost. Ali, às margens do Loch Harport, encontra-se a Destilaria Talisker.

Fundada em 1830 pelos irmãos MacAskill, Talisker é a mais antiga destilaria ainda em funcionamento na Ilha de Skye. Sua localização junto às águas do Loch Harport tornou-se inseparável da identidade da casa e de seus whiskies.

Destilaria Talisker

Depois de tantas destilarias visitadas em Speyside, Talisker parecia diferente. Speyside havia sido delicada, frutada, elegante. Talisker parecia ter sido moldada pela própria ilha: fumaça, pimenta e mar.

Os whiskies de Talisker são conhecidos por seu caráter marítimo, defumado e especialmente apimentado — uma personalidade muito diferente dos maltes que havíamos experimentado alguns dias antes.

Talvez seja apenas sugestão. Mas, ao provar um Talisker em Skye, diante do Loch Harport, parece realmente existir alguma coisa do mar dentro do copo: o sal, a fumaça, o vento, a turfa. É como se a paisagem tivesse sido destilada.

Paramos ali também para almoçar. Depois da caminhada pelas Fairy Pools, uma refeição quente era especialmente bem-vinda. Havíamos feito reserva no restaurante da própria destilaria e fomos os primeiros a chegar. A comida estava deliciosa, apesar dos pratos serem pequenos para o tamanho da nossa fome.

Restaurante da Talisker

Depois, o ambiente da loja da destilaria nos permitiu descansar e degustar alguns drams antes de iniciar a longa viagem em direção ao extremo oeste da ilha. Obviamente o motorista da vez (eu) ficou sem beber.

Nosso objetivo era chegar a Neist Point antes do sol começar a descer no horizonte. E, pela primeira vez em dois dias, parecia existir alguma possibilidade de realmente vermos o sol.

A estrada até Neist Point é uma experiência por si só. À medida que seguimos para oeste, as pequenas vilas tornam-se mais raras. As estradas estreitam-se. Mais e mais ovelhas aparecem junto ao asfalto. E o Oceano Atlântico começa lentamente a dominar a paisagem.

O contraste de cores na beira das estradas da ilha
Mais ovelhas ao longo da estrada

Finalmente chegamos ao estacionamento. Dali, uma trilha desce pelas encostas em direção a um dos faróis mais famosos da Escócia, o Farol de Neist Point.

Construído no início do século XX, o farol de Neist Point ocupa uma posição extraordinária sobre as falésias do extremo oeste de Skye. Sua luz foi acesa pela primeira vez em 1º de novembro de 1909. O projeto de engenharia ficou a cargo de David A. Stevenson, membro da célebre família Stevenson, responsável por numerosos faróis ao redor da costa escocesa. Em 1990, a estação foi automatizada.

Farol de Neist Point

Visto de longe, o pequeno edifício branco parece quase insignificante. Ao seu redor, enormes falésias mergulham diretamente no oceano. E atrás delas existe apenas o Atlântico.

Escolhemos um ponto sobre as encostas e esperamos. Depois de dois dias de névoa, o céu ainda apresentava muitas nuvens. Mas agora existiam pequenas aberturas. O sol aparecia. Desaparecia. Voltava a surgir alguns minutos depois.

A luz mudava constantemente. As falésias, antes cinzentas, começaram a adquirir tons dourados. O mar refletia pequenos fragmentos de luz. E então o sol começou lentamente a descer em direção ao horizonte.

Finalmente o pôr de sol em Neist Point

Não foi um pôr do sol perfeitamente limpo. Talvez tenha sido melhor assim. As nuvens filtravam a luz. Raios atravessavam pequenas aberturas no céu. E o farol permanecia imóvel diante do oceano. Depois de tanta névoa, Skye finalmente nos oferecia um pouco de luz.

Dunvegan – O castelo que ficou para outra viagem
No caminho de volta a Portree, passamos pelo Castelo de Dunvegan. Infelizmente, naquele momento, o castelo encontrava-se temporariamente fechado e não pudemos visitá-lo.

Mas mesmo uma passagem por ali merece algumas palavras. O Castelo de Dunvegan é conhecido pode ser o castelo continuamente habitado mais antigo da Escócia e permanece há cerca de 800 anos como residência ancestral dos chefes do clã MacLeod.

Poucos lugares em Skye estão tão profundamente ligados à história dos clãs. Entre os tesouros associados ao castelo encontra-se a famosa Fairy Flag, uma antiga bandeira de seda envolvida por inúmeras lendas. Segundo a tradição dos MacLeod, ela possuiria poderes milagrosos e poderia salvar o clã em momentos de extremo perigo. A própria história oficial do castelo indica que o tecido provavelmente se originou na Síria ou em Rodes e pode remontar ao século IV.

Naquele dia, entretanto, os portões permaneceram fechados. Às vezes, uma viagem também é feita dos lugares que não conseguimos visitar. Dunvegan ficou para uma próxima Escócia.

Seguimos finalmente para Portree. A estrada já começava a escurecer quando chegamos à cidade. Depois das piscinas transparentes de Glen Brittle, do whisky de Talisker e das falésias de Neist Point, aquela seria nossa última noite na Ilha de Skye.

No dia seguinte, deixaríamos a ilha. Mas Skye parecia despedir-se de maneira muito diferente daquela como havia nos recebido. Chegamos entre nuvens. Caminhamos sob névoa. Enfrentamos chuvisco. Vimos montanhas desaparecerem diante dos olhos. E, finalmente, assistimos ao sol se pôr sobre o Atlântico.

Talvez essa seja a melhor maneira de compreender Skye. A ilha nunca mostra tudo de uma vez. É preciso esperar. Caminhar. Molhar-se um pouco. E ter paciência. Quando finalmente decide se revelar, dificilmente é esquecida.

Próxima parada: Lowlands: Glenfinnan, Onich, Glencoe e Glasgow.

Crédito das fotos: Fabio Tagnin

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