Highlands – Escócia

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Dia 5 – de Edimburgo a Fort William

O percurso entre Edimburgo e Fort William atravessa literalmente o nascimento da Escócia, passando por locais ligados aos reis escoceses, às Guerras de Independência e aos clãs das Highlands.

Depois de três dias inteiros explorando Edimburgo, chegou o momento de deixar a capital e seguir rumo às Highlands, uma região que ocupa quase metade do território escocês e que, para muitos, representa a verdadeira alma do país.

A paisagem muda rapidamente. As avenidas elegantes dão lugar a estradas estreitas cercadas por campos verdejantes, pequenas fazendas, bosques de pinheiros e montanhas que parecem crescer no horizonte a cada quilômetro percorrido.

O roteiro deste dia percorre aproximadamente 290 quilômetros e passa por quatro locais fundamentais para compreender a história da Escócia: Stirling, Scone Palace, Blair Castle e, finalmente, Fort William.

Mais do que uma viagem entre cidades, trata-se de uma viagem através de quase mil anos da história escocesa.

A primeira parada foi em Stirling, uma pequena cidade que talvez tenha desempenhado um papel maior na história da Escócia do que qualquer outra. Sua importância está diretamente ligada à geografia. Durante séculos, Stirling controlava a principal passagem entre as Lowlands e as Highlands. Quem dominasse sua fortaleza praticamente controlava todo o país.

Não por acaso, existe um antigo ditado escocês:

“Quem controla Stirling controla a Escócia.”

Na região, o Castelo de Stirling domina completamente a paisagem. Construído sobre outro enorme afloramento vulcânico, semelhante ao de Edimburgo, ele foi residência favorita de diversos reis da dinastia Stewart.

Castelo de Stirling

Poucos castelos escoceses testemunharam tantos acontecimentos importantes. Foi aqui que Mary Stuart foi coroada rainha da Escócia em 1543, quando tinha apenas nove meses de idade. Também foi palco da infância de Jaime VI, que mais tarde unificaria as coroas da Escócia e da Inglaterra.

O castelo atual é considerado um dos melhores exemplos da arquitetura renascentista britânica. Após décadas de restauração, seus salões voltaram a apresentar as cores vibrantes e a decoração que possuíam no século XVI, permitindo que se imagine como vivia a corte escocesa em seu período de maior esplendor. A vista de suas muralhas alcança quilômetros de distância e explica imediatamente por que aquela fortaleza era considerada praticamente inexpugnável.

Interior restaurado de um dos salões do castelo
William Wallace e Robert the Bruce
Stirling é lembrada principalmente por dois homens que mudaram o destino da Escócia. Em 1297, poucos quilômetros ao norte dali, ocorreu a célebre Batalha da Ponte de Stirling. Liderando um exército muito menor, William Wallace derrotou as tropas do rei inglês Eduardo I utilizando magistralmente o estreito acesso da antiga ponte medieval. A vitória transformou Wallace em herói nacional. Embora tenha sido posteriormente capturado e executado em Londres, sua resistência tornou-se símbolo da luta pela independência escocesa.

Alguns anos mais tarde, outro personagem assumiria esse papel. Robert the Bruce derrotaria definitivamente os ingleses na Batalha de Bannockburn, em 1314, praticamente consolidando a independência do reino escocês.

Hoje um moderno centro de visitantes permite compreender os detalhes dessa batalha decisiva. Mesmo quem nunca assistiu ao filme Coração Valente percebe rapidamente que boa parte da identidade nacional escocesa nasceu exatamente nesta região.

Deixando Stirling para trás, a estrada segue em direção ao norte até chegar aos arredores da cidade de Perth. Ali encontra-se um dos locais mais importantes da história da Escócia, embora frequentemente menos conhecido pelos visitantes. À primeira vista, o elegante Scone Palace parece apenas mais uma bela residência aristocrática.

Scone Palace

Na realidade, ele ocupa o terreno onde existia a antiga Abadia de Scone, considerada durante séculos o centro político e espiritual do reino. Foi ali que dezenas de reis escoceses foram oficialmente coroados.

A Pedra do Destino
O maior símbolo de Scone era a lendária Pedra do Destino (Stone of Destiny ou Stone of Scone). Durante séculos, a Pedra do Destino permaneceu na Abadia de Scone, onde todos os reis da Escócia eram tradicionalmente coroados. Não era apenas um bloco de arenito avermelhado com cerca de 150 quilos; para os escoceses, representava a legitimidade da monarquia e a própria soberania do reino.

Em 1296, durante as Guerras de Independência da Escócia, o rei inglês Eduardo I invadiu o país com o objetivo de subjugar definitivamente os escoceses. Como parte dessa demonstração de poder, ordenou que a Pedra do Destino fosse retirada de Scone e levada para Londres. Mais do que um saque de guerra, tratava-se de um gesto profundamente simbólico: ao remover a pedra utilizada nas coroações dos reis escoceses, Eduardo I pretendia demonstrar que a Escócia havia perdido sua independência.

Poucos anos depois, o monarca mandou construir uma cadeira especial para as coroações na Abadia de Westminster. Conhecida como Coronation Chair, ela possuía um compartimento sob o assento destinado justamente a abrigar a Pedra do Destino. Desde então, praticamente todos os soberanos ingleses e, mais tarde, britânicos foram coroados sentados sobre ela, reforçando a ideia de que também eram os legítimos governantes da Escócia.

A pedra permaneceu em Westminster por mais de seis séculos, até que, na madrugada de 25 de dezembro de 1950, quatro estudantes escoceses decidiram recuperá-la. O grupo era formado por Ian Hamilton, Kay Matheson, Gavin Vernon e Alan Stuart, jovens nacionalistas que acreditavam que a pedra deveria retornar ao seu país.

Aproveitando o movimento reduzido do Natal, eles entraram clandestinamente na Abadia de Westminster. O plano, entretanto, quase terminou em desastre.
Ao tentarem retirar a pedra da cadeira de coroação, seu enorme peso fez com que ela caísse no chão, partindo-se em dois grandes pedaços. Mesmo assim, os estudantes conseguiram levar as partes separadamente em dois automóveis e atravessar a fronteira até a Escócia.

Durante semanas, toda a polícia britânica procurou pela pedra. O episódio ganhou enorme repercussão internacional. Enquanto muitos ingleses classificavam o ato como um roubo, boa parte dos escoceses via os estudantes como heróis nacionais.
Para reparar os danos, os estudantes recorreram discretamente ao escultor e pedreiro Robert Gray, de Glasgow, que restaurou a pedra de forma quase imperceptível.

Durante vários meses, seu paradeiro permaneceu desconhecido. Finalmente, em abril de 1951, ela foi deixada anonimamente sobre o altar-mor da Abadia de Arbroath, local de enorme importância histórica por ter sido ali assinada, em 1320, a famosa Declaração de Arbroath, um dos documentos fundamentais da independência escocesa.

A polícia recuperou a pedra e ela foi devolvida novamente à Abadia de Westminster. Curiosamente, apesar da enorme repercussão do caso, nenhum dos estudantes foi processado. O governo britânico receava que um julgamento transformasse os jovens em mártires do nacionalismo escocês. Ian Hamilton, líder da ação, tornou-se uma figura bastante conhecida na Escócia e, décadas depois, publicou um livro narrando toda a aventura.

Durante décadas, sucessivos governos escoceses reivindicaram seu retorno. E finalmente, em 3 de julho de 1996, exatamente setecentos anos após sua remoção por Eduardo I, o governo britânico anunciou oficialmente que a Pedra do Destino voltaria para a Escócia. E a transferência ocorreu em 30 de novembro de 1996, Dia de Santo André, padroeiro da Escócia. Foi uma cerimônia carregada de simbolismo.

Milhares de pessoas acompanharam a chegada da pedra ao Castelo de Edimburgo, onde passou a integrar as Honras da Escócia — as joias da Coroa Escocesa.
Ao mesmo tempo, ficou estabelecido um acordo: sempre que houver uma nova coroação de um monarca britânico, a pedra será temporariamente levada a Londres e, após a cerimônia, retornará à Escócia.

Foi exatamente o que aconteceu na coroação do rei Charles III, em 6 de maio de 2023. A pedra foi transportada para a Abadia de Westminster para a cerimônia e depois devolvida ao seu local de guarda na Escócia. E desde 2024 ela está exposta no Museu de Perth, a poucos quilômetros do Palácio de Scone, mas há uma réplica nos jardins do palácio.

Além de sua importância histórica, Scone Palace impressiona pelos belíssimos jardins. Árvores centenárias, pavões caminhando livremente pelos gramados e extensos canteiros floridos criam um ambiente extremamente agradável. O interior preserva mobiliário, porcelanas, tapeçarias e retratos que contam a trajetória da família Murray, Condes de Mansfield, proprietária do palácio desde o início do século XIX. Como no Palácio de Holyrood, ali mora uma família de sangue azul, e não se pode tirar fotos dentro dos aposentos.

Réplica da Pedra do Destino e a Capela ao fundo

Prosseguindo pela A9, a paisagem torna-se progressivamente mais montanhosa. Pouco antes do Parque Nacional de Cairngorms, paramos para visitar a destilaria Blair Atholl, mas como eram 16h55 ela já não receberia mais visitantes, tampouco seu bar estava aberto para degustação. Uma pena. Pelo menos pudemos fotografar suas paredes de folhas vermelhas, que a cada estação mudam de cor.

Destilaria Blair Atholl

Logo adiante, entre bosques e montanhas ergue-se o Blair Castle. Diferentemente da maioria dos castelos escoceses, construídos em pedra escura, Blair chama atenção por suas paredes completamente brancas. Seu aspecto elegante quase faz lembrar um palácio francês. Mas sua história está longe de ser tranquila.

Fundado em 1269, Blair Castle foi ampliado inúmeras vezes ao longo dos séculos. Mistura elementos medievais, georgianos e vitorianos, refletindo as sucessivas transformações sofridas pela residência. Durante as Guerras Jacobitas, o castelo foi ocupado alternadamente por tropas governistas e rebeldes. Cada novo conflito deixava marcas em sua arquitetura. Seu interior hoje preserva mais de trinta ambientes históricos, incluindo salões de recepção, biblioteca, arsenal e aposentos particulares da família Atholl.

Blair Castle guarda uma curiosidade única: ali está sediado o Atholl Highlanders, considerado o único exército privado oficialmente reconhecido em toda a Europa. A origem dessa tradição remonta a 1844, quando a Rainha Vitória hospedou-se no castelo. Encantada com a recepção organizada pelo Duque de Atholl, concedeu à sua guarda particular o direito de tornar-se uma unidade militar cerimonial permanente. Até hoje, os Atholl Highlanders utilizam uniformes tradicionais e continuam realizando desfiles em ocasiões especiais. É uma tradição absolutamente singular em todo o continente europeu.

Quando chegamos, a entrada já estava fechada e, infelizmente não pudemos caminhar pelos belíssimos Hercules Gardens, criados no século XVIII, com seus apresentam canteiros geométricos, árvores centenárias e uma vista magnífica para as montanhas das Highlands. No verão, dizem, tornam-se um espetáculo de cores.

Depois de Blair Castle, a estrada começa a revelar uma Escócia completamente diferente daquela encontrada nos dias anteriores. As florestas tornam-se mais densas. Os vales tornam-se mais amplos. Pequenos rios cristalinos acompanham a estrada. O relevo começa lentamente a anunciar as Highlands.

Pouco a pouco surgem montanhas recobertas por urze, lagos escondidos entre os vales e pequenas aldeias de pedra onde o tempo parece passar mais devagar. É impossível não compreender por que esta região inspirou tantas lendas, poemas e canções.

O outono deixando sua marca

Ao final da tarde, chegamos a Fort William. A cidade desenvolveu-se ao redor de um forte construído pelas tropas do rei Guilherme III no final do século XVII, durante as campanhas para controlar os clãs das Highlands. Hoje, entretanto, Fort William tornou-se conhecida principalmente por sua localização privilegiada. É considerada a capital das Highlands Ocidentais e serve como porta de entrada para algumas das paisagens mais espetaculares da Escócia.

Bem ao lado da cidade ergue-se o Ben Nevis, com 1.345 metros de altitude, o ponto mais elevado de todo o Reino Unido. Nos dias claros, seu cume costuma permanecer parcialmente envolto por nuvens, criando uma paisagem típica das Highlands.

Ao caminhar pelas ruas tranquilas da cidade, às margens do Loch Linnhe, percebe-se que a viagem acaba de entrar em uma nova fase. Se Edimburgo revelou a história da Escócia, as Highlands começam agora a revelar sua natureza mais selvagem, suas antigas tradições os cenários mais dramáticos.

Dia 6 – de Fort William a Inverness

Depois de uma noite de descanso em Fort William, a viagem segue para o norte, atravessando uma das regiões mais lendárias da Escócia. O percurso deste dia não é longo em distância (apenas cerca de 100 Km), mas é enorme em significado. Ele acompanha lagos profundos, vales glaciais, canais históricos e ruínas medievais até chegar a Inverness, considerada a capital das Highlands.

Seguindo o canal de Loch Lochy, chegamos a Fort Augustus, uma pequena vila situada na extremidade sul do Lago Ness. Seu principal charme está nas eclusas do Caledonian Canal, obra de engenharia do século XIX que conecta a costa leste à costa oeste da Escócia. A vila é um excelente primeiro contato com o Lago Ness. Dali, suas águas escuras parecem se estender até desaparecer no horizonte, cercadas por colinas verdes e por uma atmosfera de mistério que acompanha o lago há séculos.

O Lago Ness é um dos lugares mais famosos da Escócia, não apenas por sua beleza natural, mas pela lendária criatura que supostamente habita suas profundezas: o monstro do Lago Ness, carinhosamente chamado de Nessie.

Lago Ness

O lago é imenso, estreito e extraordinariamente profundo. Suas águas escuras, tingidas pela turfa das montanhas ao redor, ajudam a alimentar o imaginário popular. Em dias nublados, quando a névoa cobre parcialmente a superfície, é fácil compreender por que tantas histórias nasceram neste cenário.

Os relatos sobre uma criatura aquática remontam a muitos séculos, mas foi no século XX que Nessie se transformou em fenômeno mundial. Desde então, fotografias controversas, expedições científicas, sonares e incontáveis testemunhos mantiveram viva uma das lendas mais famosas do planeta. Mesmo para quem não acredita no monstro, o Lago Ness continua impressionante, com seu silêncio, sua profundidade e sua paisagem dramática.

Seguindo pela margem oeste do Lago Ness, chegamos logo ao Castelo de Urquhart. Poucos castelos escoceses possuem localização tão espetacular. Suas ruínas repousam sobre uma península rochosa que avança diretamente sobre o lago.

Castelo de Urquhart

A história do castelo acompanha mais de mil anos de disputas. O local já foi fortaleza dos pictos, passou para mãos escocesas, foi controlado por diferentes clãs e sofreu inúmeros ataques ao longo da Idade Média. Durante séculos, Urquhart esteve no centro das lutas entre a Coroa Escocesa e os poderosos senhores das ilhas, especialmente o clã MacDonald.

No final do século XVII, para impedir que fosse usado por forças jacobitas, parte do castelo foi deliberadamente destruída. Desde então, permaneceu em ruínas. Hoje, justamente essa condição dá ao lugar sua beleza. A torre Grant, os antigos muros, os pátios e as fundações abertas para o céu permitem imaginar a fortaleza em seu auge, enquanto o Lago Ness se estende silencioso ao redor.

Após deixar Urquhart, paramos no vilarejo de Drumnadrochit para almoçar. Em seguida, continuamos na estrada acompanhando o lago até alcançarmos Inverness. Situada às margens do Rio Ness, a cidade é considerada a capital das Highlands e serve como base perfeita para explorar o norte da Escócia.

Inverness

Inverness é pequena, agradável e fácil de percorrer a pé. Seu centro reúne pontes sobre o rio, igrejas de pedra, cafés, lojas e pubs tradicionais. Ao caminhar pelas margens do Ness, percebe-se uma atmosfera mais tranquila do que em Edimburgo ou Glasgow.

Embora moderna, a cidade preserva forte ligação com a história das Highlands. Foi nas proximidades de Inverness que ocorreu a Batalha de Culloden, em 1746, o último grande confronto travado em solo britânico e o episódio que marcou o fim da rebelião jacobita.

Dia 7 – Inverness, Elgin e Lossiemouth

Após um bom café da manhã no aconchegante apartamento à beira do calçadão da cidade, partimos para explorar seu centro histórico. Apesar de possuir pouco mais de oitenta mil habitantes, Inverness ocupa um lugar especial na identidade escocesa. Seu nome deriva do gaélico Inbhir Nis, que significa “a foz do Rio Ness”, referência ao rio que atravessa elegantemente a cidade antes de desaguar no Moray Firth.

Ao contrário de Edimburgo, cuja história está ligada aos reis, ou de Glasgow, marcada pela Revolução Industrial, Inverness representa a cultura das Highlands. É aqui que muitos visitantes têm o primeiro contato com o gaélico escocês, com os tradicionais ceilidhs — encontros de música e dança — e com o estilo de vida mais tranquilo do norte do país.

Uma construção que se enxerga de praticamente todo lugar, dominando uma colina às margens do Rio Ness, é o Castelo de Inverness. Embora sua aparência atual seja relativamente recente — fruto de uma reconstrução realizada no século XIX em arenito avermelhado — o local abriga uma fortificação há mais de mil anos.

Castelo de Inverness

A fortaleza também ficou eternizada por William Shakespeare. Em sua tragédia Macbeth, é no castelo de Inverness que Macbeth recebe o rei Duncan antes de assassiná-lo. Embora a narrativa seja amplamente fictícia, ela contribuiu para tornar o castelo conhecido em todo o mundo.

Ali embaixo, o Ness percorre apenas cerca de doze quilômetros entre o Lago Ness e o mar, mas suas águas cristalinas definem completamente a paisagem urbana. Suas margens são cuidadosamente arborizadas, pequenas pontes metálicas unem os dois lados da cidade e agradáveis caminhos convidam a uma caminhada tranquila. É comum ver moradores passeando com seus cães, corredores aproveitando o início da manhã e pescadores tentando capturar os famosos salmões que sobem o rio durante determinadas épocas do ano.

Às margens opostas do castelo encontra-se a Catedral de Santo André, a Catedral de Inverness. Construída no século XIX em estilo neogótico, ela chama atenção por sua fachada simétrica e pelas duas torres que, curiosamente, nunca atingiram a altura originalmente planejada por falta de recursos financeiros. Seu interior é simples e elegante, refletindo a tradição episcopal escocesa.

Catedral de Inverness

Cruzando a ponte novamente para o lado do castelo, vale conhecer o Victorian Market. Inaugurado em 1891, esse pequeno mercado coberto preserva o charme da arquitetura vitoriana. Suas passagens estreitas reúnem cafeterias, confeitarias, lojas de artesanato, livrarias e pequenos comerciantes locais. É um excelente local para experimentar um tradicional shortbread escocês acompanhado de um café, e foi exatamente o que fizemos, antes de pegar o carro para o curto passeio do dia.

Um outro ponto de interesse na cidade é a Leakey’s Bookshop. Poucos lugares em Inverness conseguem transmitir uma atmosfera tão acolhedora quanto esta livraria. Fundada em 1979 por Charles Leakey, ela ocupa desde a década de 1990 a antiga St. Mary’s Gaelic Church, um belo edifício do final do século XVIII que foi cuidadosamente adaptado para abrigar a maior livraria de livros usados da Escócia.

Leakey’s Bookshop

Com mais de 100 mil volumes, além de mapas, gravuras e obras raras, o espaço tornou-se um verdadeiro ponto de peregrinação para bibliófilos do mundo inteiro. O grande encanto da livraria está justamente na forma como a arquitetura original foi preservada. Altas estantes de madeira ocupam a nave da antiga igreja, uma elegante escada em espiral conduz ao mezanino e um enorme fogão a lenha aquece o ambiente durante o inverno, enchendo o salão com o aroma característico da madeira queimando. O contraste entre o silêncio quase reverente do antigo templo e milhares de livros cuidadosamente organizados faz com que muitos visitantes descrevam o lugar como uma verdadeira “catedral da literatura”.

Leakey’s Bookshop por dentro

Nosso plano foi de almoçar na Cidade da Catedral, Elgin, a cerca de sessenta quilômetros ao nordeste. Muito antes de Speyside tornar-se mundialmente conhecida por suas destilarias, Elgin já era um importante centro religioso, comercial e administrativo do norte da Escócia. Hoje, suas ruas tranquilas preservam parte dessa herança medieval.

A estrada até Elgin atravessa suaves colinas agrícolas e pequenas comunidades rurais da região de Moray. Pouco menos de uma hora depois, surge uma cidade muito diferente das Highlands montanhosas. Elgin cresceu graças à fertilidade de suas terras e ao importante papel desempenhado pela Igreja durante a Idade Média.

Como a fome já estava batendo, a primeira coisa que fizemos foi almoçar no The Granary. Fizemos reserva online no caminho de lá, mas estava vazio.

Restaurante The Granary

De barriga cheia, caminhamos pela High Street, principal via comercial da cidade. Ali, pequenas lojas independentes, cafés e confeitarias ocupam edifícios georgianos e vitorianos cuidadosamente preservados.

High Street

Em seguida, continuamos o caminho em direção ao grande símbolo da cidade, a magnífica Catedral de Elgin. Construída a partir de 1224, foi considerada durante séculos a mais bela igreja medieval da Escócia. Não por acaso ficou conhecida como “A Lanterna do Norte”, graças à imponência de sua arquitetura gótica e à qualidade de seus trabalhos em pedra.

Ruínas da Catedral de Elgin

Infelizmente, incêndios, guerras religiosas e séculos de abandono transformaram a catedral em ruínas. Mesmo assim, suas paredes, colunas e arcadas ainda impressionam pela escala monumental. Subir à torre permite admirar todo o conjunto arquitetônico e compreender a grandiosidade que esse edifício possuía em seu auge.

Ao lado da catedral encontram-se as ruínas do antigo Palácio dos Bispos de Moray. Durante a Idade Média, os bispos de Elgin figuravam entre as autoridades mais influentes da Escócia. O palácio servia simultaneamente como residência, centro administrativo e local de recepção de membros da nobreza.

Como ainda tínhamos tempo, dirigimos por 15 Km apenas até a cidade de Lossiemouth, um contraste muito interessante com as cidades anteriores: o Mar do Norte, grandes praias de areia dourada, falésias e um dos mais importantes portos pesqueiros da Escócia.

Pintura na praia de Lossiemouth

O nome Lossiemouth significa literalmente “a foz do Rio Lossie”, que deságua no Mar do Norte exatamente na cidade, e o lugar é conhecido pelos escoceses também como “A Joia de Moray”.

Lossiemouth viveu da pesca durante séculos. Seu porto tornou-se um dos mais importantes da costa nordeste escocesa, especialmente para a captura de arenques, que durante o século XIX movimentaram intensamente a economia local.

Hoje o maior cartão-postal da cidade é sua extensa praia. A East Beach impressiona pela largura da faixa de areia, pelas dunas preservadas e pela água cristalina do Mar do Norte. Mesmo durante o verão, a temperatura da água permanece bastante baixa, fazendo com que poucos visitantes se aventurem a nadar. Na tarde de céu azul em que estivemos lá, pudemos caminhar pela areia observando o encontro das ondas com as falésias e respirando o ar salgado vindo do oceano.

Poucos quilômetros a oeste da cidade encontra-se um dos faróis mais bonitos da região. O Covesea Lighthouse, inaugurado em 1846, foi projetado pelos irmãos Alan e Thomas Stevenson, membros da famosa família de engenheiros de faróis da Escócia e parentes do escritor Robert Louis Stevenson, autor de A Ilha do Tesouro.

Durante mais de um século, sua luz guiou embarcações através das perigosas águas do Moray Firth. Hoje o farol permanece como um belo mirante sobre o litoral, oferecendo vistas espetaculares das falésias e do mar aberto. Em dias claros, dizem que é possível observar golfinhos-nariz-de-garrafa (bottlenose dolphins), bastante comuns nesta parte da costa escocesa.

No final da tarde, a estrada nos conduziu novamente a Inverness.

Nosso próximo destino foi em Speyside: destilarias de whisky.

Crédito das fotos: Fabio Tagnin

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