Poucas cidades no mundo conseguem despertar uma sensação tão imediata de encantamento quanto Dubrovnik. Cercada por muralhas medievais que parecem brotar diretamente das águas azul-turquesa do Mar Adriático, a cidade combina séculos de história, arquitetura impecavelmente preservada e uma atmosfera vibrante que a transformou em Patrimônio Mundial da UNESCO. Caminhar por suas ruas de pedra polida é percorrer a antiga República de Ragusa, uma potência marítima que rivalizou com Veneza durante séculos.
Ao longo dos últimos anos, Dubrovnik ganhou ainda mais notoriedade ao servir de cenário para diversas produções cinematográficas, especialmentea série Game of Thrones. Entretanto, basta afastar o olhar das referências da cultura pop para descobrir uma cidade cuja verdadeira riqueza está em sua história, em seus monumentos e na forma como o passado continua presente em cada praça, igreja e palácio.
Reserve dois dias inteiros para explorar Dubrovnik sem pressa. O roteiro a seguir privilegia caminhadas tranquilas, pequenas pausas para contemplar a paisagem e tempo suficiente para absorver a atmosfera única de uma das cidades mais fascinantes da Europa. Fizemos o passeio com uma guia local maravilhosa, que nos prestigiou com seu vasto conhecimento de história e sobre os cantinhos escondidos onde os turistas não costumam ir. Para quem quiser a referência, basta entrar em contato com a Natasha Brailo pelo Instagram: @dubrovnik_em_portugues.
Primeiro dia – Descobrindo a Cidade Velha
Logo pela manhã, atravessamos a monumental Porta Ploce, entrada oriental da Cidade Velha. Ao cruzar a ponte de pedra sobre o antigo fosso, é impossível não sentir que você acaba de atravessar um portal para outra época. Aliás, tivemos a mesma sensação na noite anterior, quando chegamos na cidade depois do pôr do sol. Saímos a pé do apartamento que alugamos e quisemos jantar na cidade velha. Tivemos uma enorme surpresa, ao passar pelos portões iluminados, virar a esquina da primeira ruela e nos depararmos com a grandiosidade e espírito daquele lugar!

As largas muralhas de pedra branca envolvem um dos conjuntos urbanos medievais mais bem preservados do continente. Durante séculos, elas protegeram uma cidade que prosperou graças ao comércio marítimo, à diplomacia e à independência política cuidadosamente construída pela República de Ragusa.

Poucos passos após entrar na cidade levam até um dos edifícios mais queridos pelos habitantes locais. A Igreja de St. Blaise é dedicada ao padroeiro de Dubrovnik, São Brás, cuja imagem aparece em inúmeras esculturas espalhadas pela cidade segurando uma pequena representação das muralhas. A tradição conta que o santo teria alertado os habitantes sobre uma invasão veneziana no século X, tornando-se desde então o eterno protetor da cidade. Construída em estilo barroco após o terremoto de 1667, sua elegante fachada domina a praça principal e constitui um dos cartões-postais de Dubrovnik.
Seguindo em frente, chega-se à Stradun, a principal rua da Cidade Velha. Inteiramente pavimentada com grandes placas de calcário branco, polidas por séculos de passos humanos, ela muda completamente de aparência conforme a luz do dia. Pela manhã reflete o azul do céu; ao entardecer adquire um brilho dourado quase cinematográfico. Durante a Idade Média, este era o coração comercial da República de Ragusa. Hoje reúne cafés, sorveterias, pequenas lojas, restaurantes e edifícios históricos perfeitamente preservados. Caminhar lentamente pela Stradun é provavelmente a melhor maneira de sentir o ritmo de Dubrovnik.

Na extremidade ocidental da Stradun encontra-se uma das maiores realizações de engenharia da cidade medieval. Construída em 1438 pelo arquiteto italiano Onofrio della Cava, a Grande Fonte de Onofrio fazia parte do sofisticado sistema que trazia água potável de uma nascente localizada a mais de 12 quilômetros dali. Mesmo após quase seis séculos, parte desse sistema continua funcionando. Não deixe de experimentar a água da fonte — tradição seguida tanto por moradores quanto por visitantes. E se estiver ali no verão, encha suas garrafas, porque o calor promete!

Deixando a avenida principal, algumas pequenas vielas conduzem à Praça Ivan Gundulić. Todas as manhãs ela recebe um simpático mercado onde produtores locais vendem frutas frescas, azeites, mel, lavanda, licores, ervas aromáticas e lembranças artesanais.

Ao centro da praça está a estátua de Ivan Gundulić, considerado o maior poeta da literatura croata. É um excelente local para fazer uma pausa, provar um figo seco ou uma pequena taça de rakija produzida artesanalmente.

Continuando a caminhada, chegamose às famosas escadarias barrocas que conduzem ao antigo Colégio Jesuíta. Projetadas no século XVIII inspiradas na Escadaria Espanhola de Roma, elas ganharam fama internacional ao aparecerem em uma das cenas mais marcantes de Game of Thrones.

Mesmo para quem nunca assistiu à série, as escadas impressionam pela elegância da arquitetura e pela bela perspectiva sobre os telhados de Dubrovnik. No topo encontra-se a Igreja de Santo Inácio, um dos interiores barrocos mais bonitos da cidade.

Descendo novamente para o centro histórico, chegamos à Catedral da Assunção (Catedral de Dubrovnik). Segundo a tradição, uma igreja anterior teria sido financiada pelo rei inglês Ricardo Coração de Leão após sobreviver a um naufrágio próximo dali em 1192. O edifício atual foi reconstruído após o terremoto de 1667 e apresenta um belo estilo barroco italiano. Seu tesouro abriga importantes relíquias religiosas, incluindo objetos de ouro, prata e antigos manuscritos.

Poucos metros adiante está um dos edifícios mais importantes da antiga República de Ragusa. O Palácio do Reitor servia simultaneamente como residência oficial, sede administrativa, tribunal e centro do governo. Curiosamente, o Reitor exercia mandato de apenas um mês e, durante esse período, praticamente não podia deixar o edifício, evitando qualquer possibilidade de abuso de poder. Seu elegante pátio interno, cercado por colunas renascentistas, é considerado um dos ambientes mais belos de Dubrovnik.


Em frente ao Palácio do Reitor encontra-se outro símbolo da antiga prosperidade da cidade. Construído no início do século XVI, o Palácio Sponza já abrigou alfândega, tesouro, banco, casa da moeda e centro comercial. Foi um dos poucos grandes edifícios que sobreviveram praticamente intactos ao terremoto de 1667. Hoje preserva importantes documentos históricos e oferece uma oportunidade única de compreender a impressionante organização administrativa da antiga República de Ragusa.
Para encerrar o primeiro dia, seguimos de volta ao nosso apartamento, em direção ao extremo oriental das muralhas até a Fortaleza Revelin. Erguida no século XVI para proteger a entrada leste da cidade contra possíveis ataques do Império Otomano, ela possui enormes muralhas inclinadas e uma posição estratégica privilegiada. Do terraço superior obtêm-se algumas das vistas mais bonitas sobre o porto antigo, os telhados alaranjados da Cidade Velha e o azul intenso do Adriático. À medida que o sol começa a baixar, a luz dourada transforma Dubrovnik em um cenário inesquecível.

Como é muito difícil resistir a um dia inteiro de caminhada, preciso dizer que paramos para almoçar em uma das vielas paralelas ou perpendiculares da avenida principal. É ali que se escondem diversas sorveterias, barzinhos e outros lugares aconchegantes para se tomar um lanche ou fazer refeições mais completas.

Segundo dia – Fortalezas, museus e a história recente
Depois de conhecer o coração medieval da cidade, o segundo dia permite compreender como Dubrovnik atravessou guerras, terremotos e séculos de transformações, preservando sua identidade.
Começamos a manhã atravessando a cidade velha, entrando pelo Portão Ploce e saindo pelo Portão Pile, em direção à pequena ponte que leva ao Forte Lovrijenac. Erguido sobre um rochedo com quase quarenta metros de altura, ele ficou conhecido como a Fortaleza de São Lourenço. Sua localização permitia controlar qualquer tentativa de invasão pelo mar. Acima da entrada encontra-se uma inscrição em latim que resume perfeitamente o espírito da antiga República:
“Non Bene Pro Toto Libertas Venditur Auro.”
“A liberdade não se vende por todo o ouro do mundo.”

As vistas sobre as muralhas de Dubrovnik estão entre as mais espetaculares da cidade. Foi justamente aqui que diversas cenas de Game of Thrones foram filmadas – o lugar ainda é conhecido como “The Red Keep”.

Retornando ao centro histórico, paramos para entrar em um dos edifícios mais importantes de Dubrovnik. O Mosteiro Franciscano abriga um belo claustro românico-gótico repleto de colunas delicadamente esculpidas. Seu maior destaque, porém, é a Farmácia fundada em 1317. Considerada uma das farmácias em funcionamento contínuo mais antigas do mundo, ela ainda comercializa produtos cosméticos produzidos segundo receitas históricas, além de antigos preparados medicinais. O pequeno museu reúne utensílios farmacêuticos, manuscritos e equipamentos utilizados ao longo dos séculos.


Nenhuma visita a Dubrovnik fica completa sem compreender os acontecimentos da Guerra da Independência da Croácia. O Homeland War Museum apresenta uma narrativa sensível e extremamente bem organizada sobre o cerco sofrido pela cidade entre 1991 e 1992. Fotografias, mapas, equipamentos militares e depoimentos ajudam o visitante a entender como Dubrovnik resistiu aos bombardeios que danificaram parte significativa do centro histórico. Na parede, uma frase em relevo chama a atenção:
“Non bene pro toto libertas venditur auro.”
“Not for a world of gold should liberty be sold.”
A visita torna ainda mais impressionante perceber o extraordinário trabalho de restauração realizado posteriormente. E na fachada do museu, ainda em realização quando estivemos lá.

Para finalizar o roteiro, visitamos o Museu Arqueológico. Seu acervo apresenta artefatos encontrados em escavações realizadas em Dubrovnik e em toda a costa dálmata. Ânforas romanas recuperadas do fundo do mar (acho que eram tantas que no apartamento em que ficamos em Hvar havia algumas delas) , cerâmicas gregas, joias medievais, moedas e objetos do cotidiano revelam que esta região foi ocupada continuamente durante milhares de anos. É uma excelente oportunidade para compreender que a história de Dubrovnik começou muito antes das muralhas que hoje encantam milhões de visitantes.
A cidade tem cantos e encantos e, entre eles, uns lugares inusitados e divertidos, como o barzinho onde passamos umas horas à tarde, tomando umas cervejas – as mais caras que já pagamos na vida. Como o lugar não cobra pela entrada, valeu cada centavo. Mas prometi à guia que não revelaria o caminho de entrada, para não atrair muitos turistas. 🙂

E além de toda essa enormidade de palácios, igrejas, fontes e fortalezaas, a cidade ainda tem umas prainhas gostosas para se passar umas horas, como a Sveti Jakov, onde dedicamos um fim de tarde antes de subirmos as escadas para nosso apartamento para ver um magnífico pôr do sol.



Após dois dias caminhando por ruas de pedra que testemunharam séculos de história, é fácil compreender por que Dubrovnik ocupa um lugar tão especial na nossa memória e entre os grandes destinos do Mediterrâneo.
Sua beleza vai muito além dos cenários cinematográficos. Está na elegância silenciosa da Stradun ao amanhecer, nas histórias preservadas em seus palácios, na coragem de uma cidade que sobreviveu a guerras e terremotos e, sobretudo, na perfeita harmonia entre patrimônio histórico e paisagem natural.
Ao deixar Dubrovnik, permanece a sensação de termos visitado um lugar onde o passado continua vivo — refletido nas muralhas douradas, no brilho do Adriático e na hospitalidade de um povo profundamente orgulhoso de sua história.
Crédito das fotos: Fabio Tagnin
